Caso você seja um ser humano normal e saudável que não passa horas na frente do computador e não saiba: isekai é um termo usado para designar narrativas em que o protagonista é transportado para outro mundo. Geralmente, essas histórias giram em torno de como ele, que na maior parte dos casos é socialmente inapto, na verdade possui grandes poderes por ter passado anos jogando videogame ou consumindo fantasia. É uma espécie de versão moderna de Nárnia ou Caverna do Dragão, mas com o diferencial de transformar a realização do espectador em espelho do personagem.
E o que torna He-Man um isekai para boomer é justamente aplicar essa lógica dentro de um produto nostálgico americano. Assim como seu espectador moderno, Adam cresceu encantado por Eternia e agora, exilado de seu próprio mundo, vive relembrando uma infância em que tudo parecia mais mágico e simples. O filme o aproxima constantemente de quem está assistindo. Adam não é o melhor em seu trabalho, não possui relacionamentos exemplares e tampouco se destaca entre seus amigos. Mas é dotado de um poder que só ele pode confirmar como verdadeiro e que está diretamente impresso em suas memórias de infância.
E o filme faz questão de reforçar essa lógica mais de uma vez. Adam é literalmente salvo por lembranças de sua infância em Eternia, enquanto as pessoas ao seu redor constantemente confrontam a possibilidade de que aquele mundo não passe de uma forma de escapar das frustrações da vida adulta. O curioso é que Masters of the Universe nunca resolve completamente essa contradição. Eternia é apresentada simultaneamente como um lugar real e como uma fantasia compensatória.
Talvez, por toda essa descrição de como o filme lida com a nostalgia e funciona como um afago para um público que cresceu vendo o desenho, e posteriormente o transformou em meme, já que o longa faz questão de tocar What's Going On? em determinado momento, eu tenha soado meio condenatório em relação ao tipo de produção que ele é. E, de fato, mesmo dois dias depois de assisti-lo, ainda não sei dizer se esse é um filme “do bem ou do mal”. Mas posso garantir que é um filme divertido e surpreendentemente bem encenado.
E o mais curioso é que essa nostalgia não aparece apenas no texto. Ela também molda a própria imagem do filme.
Talvez na tentativa de reproduzir a lógica dura e travada do desenho animado, ou simplesmente de transformar seus atores em action figures ambulantes, Masters of the Universe possui uma plasticidade própria, algo que o aproxima de produções como Flash Gordon nos anos 80 e de filmes como Pequenos Espiões ou Speed Racer hoje em dia. Utilizando recursos digitais não como uma forma de mimetizar a realidade, mas como uma possibilidade de exagerá-la, o longa constrói um universo assumidamente artificial.
Isso fica evidente nas cenas de voo espacial, em que os saltos das naves transformam o espaço em linhas coloridas, ou nas sequências de ação, onde a câmera percorre constantemente os corpos dos personagens através de closes e movimentos contínuos que destacam sua fisicalidade, em especial o corpo de Adam quando transformado em He-Man, não atoa a luz dessas sequencias acaba sendo quase sempre de preenchimento para deixar as cobras marcadas dando um volume a mais para musculutura.
Essa artificialidade visual acaba complementando a própria ideia de falsidade que atravessa o filme, aproximando-o ainda mais de obras como Speed Racer ou Flash Gordon. Não que Travis Knight seja tão bom quanto as irmãs Wachowski, ou mesmo quanto Mike Hodges, mas ele certamente compreendeu o apelo plástico de Eternia e conseguiu traduzi-lo para o live-action de maneira visualmente interessante. Não é exatamente uma reinvenção da roda, mas existe personalidade suficiente para impedir que o filme pareça apenas mais um produto genérico reciclando uma propriedade intelectual dos anos 80.
Essa lógica também se estende às performances. Nicholas Galitzine abraça completamente a artificialidade da proposta. O filme o veste com roupas largas quando está na pele de Adam, tentando enfatizar sua fragilidade antes da transformação, e ele interpreta o personagem com uma ingenuidade quase infantil que torna convincente essa figura deslocada, incapaz de encontrar satisfação no presente e constantemente assombrada por uma memória idealizada da infância. Quando finalmente se transforma em He-Man, o contraste físico deixa de parecer apenas uma exigência do roteiro e passa a funcionar como a materialização desse desejo de retorno a uma versão mais simples e heroica de si mesmo.
Camila Mendes talvez não seja exatamente uma grande atriz, mas funciona muito bem como Teela justamente por servir de contraponto a Adam. Existe algo de deliberadamente canastrão em sua interpretação que dialoga diretamente com o tom do longa. O problema é que, dentro dessa obsessão pelos corpos enquanto objetos plásticos, a câmera ocasionalmente parece mais interessada em destacar seu corpo do que a personagem em si. Enquanto Adam é enquadrado como uma massa de músculos e força física, alguns enquadramentos dela acabam chamando atenção mas para o contraste do visual esqguio ou a bunda dela terminando de preencher um quadro, oque surpreendentemente em meio daquele exagera todo mal parece ser algo sexual.
Já Jared Leto entrega uma das maiores surpresas do filme. Talvez porque, graças à maquiagem e aos efeitos visuais, ele nunca esteja realmente presente enquanto Jared Leto. Existe algo de genuinamente divertido na forma como interpreta Esqueleto. O personagem possui um gestual quase shakespeariano, exagerado e afetado, e o curioso é que o próprio filme parece reconhecer o quanto tudo aquilo é ridículo. Leto, por outro lado, parece completamente comprometido com a encenação. Esse desencontro acaba funcionando e dá unidade ao humor do vilão.
Isso fica particularmente evidente quando Adam tenta explicar suas ações através de alguma lógica emocional ou traumática. Carregando consigo toda a sensibilidade terapêutica típica dos protagonistas contemporâneos, ele procura uma explicação mais profunda para a maldade de esqueleto. A resposta é uma gargalhada cartunesca seguida da explicação mais simples possível: ele é mau porque gosta de ser mau.
Alison Brie segue um caminho parecido como Evil-Lyn. Sua interpretação parece a de alguém participando de uma convenção de cosplay, constantemente exagerada, afetada e artificial. Em outro filme isso talvez fosse um problema, mas tudo que envolve o núcleo de Skeletor opera exatamente nessa frequência. O resultado é que a canastrice deixa de soar como erro e passa a complementar a proposta estética do longa.
Talvez seja justamente por isso que eu ainda não saiba se esse é um filme (do bem ou do mal). Masters of the Universe transforma a nostalgia em superpoder e nunca decide se isso é libertador ou triste. Adam salva o universo porque é incapaz de abandonar uma lembrança de infância. Existe algo de belo nisso, mas também algo profundamente melancólico.
O longa parece acreditar simultaneamente que crescer é inevitável e que algumas pessoas jamais conseguem deixar Eternia para trás. E talvez toda essa artificialidade dos cenários, dos corpos e das performances exista justamente para reforçar essa ideia. Eternia nunca é apresentada como um lugar real, mas como uma memória. Uma memória tão vívida que continua moldando quem Adam é muito depois de sua infância ter terminado.
No fim, existe algo fascinante na maneira como transforma esse apego nostalgico em matéria física, como se cada cenário falso, cada atuação canastrona e cada músculo impossível de He-Man fossem apenas diferentes formas de materializar uma lembrança. Uma lembrança da qual Adam nunca consegue escapar, e talvez nem queira.
Ps: O filme ganharia muito se não fosse tão autoconsciente o tempo todo, como na sequência com a caminhada epica dos personagens saindo da fumaça e camera lente e aos poucos tossindo revelando que o ambiente tava uma merda para se andar. Mas isso é uma critica para 80% dos blockbusters atuais.



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