Mitología, amor e o Samba de um Orfeu Negro 

E sobre como ganhar um Oscar pode passar despercebido com o tempo.

Romance - Drama - Epopeya - Musical

Em meio à agitação de um mercado contagiado pelo ritmo do carnaval, as tranças de cebola, a umidade dos polvos e a perplexidade das laranjas tendo que se arrumar nos cestos que as protegem, começa a se desenrolar a história de um encontro que nos leva, na imaginação, a viajar para uma consulta aos próprios deuses do Olimpo, a fim de entender a origem do desespero que assombra os protagonistas.

A pobreza, a fome e toda a austeridade que existe são perdoadas no preenchimento dos trajes necessários para o carnaval, e parece que quanto mais colorido for o traje, maior será a felicidade com que eclipsarão as necessidades.

Ao ritmo de uma manhã de carnaval, a realidade se arrisca a encontrar o mito, para narrar com absoluta poesia a mais dramática das histórias de um amor tragicamente proibido, apesar dos séculos.

O carnaval pode se tornar uma referência ao submundo?

Pode! A troca da lira pelo violão em Orfeu (Breno Mello) e a Morte (Adhemar Ferreira da Silva), que busca sem pressa devolver Eurídice (Marpessa Dawn) à escuridão de onde ela nunca deveria ter saído, encontrou, na pena prolífica do cantor e compositor Vinicius de Moraes e nas lentes de Marcel Camus, a maneira de transcender uma das mais tragicamente belas histórias de amor da mitologia grega já contadas, com um épico em que o samba de carnaval simboliza a mais bela música que pode existir, a ponto de comover o “invisível” deus Hades e sua raptada Perséfone, permitindo o reencontro dos amados, mas não como eles desejavam.

Cada detalhe conta ao longo do filme, assim como cada tentativa de Orfeu de ter sua amada em seus braços novamente.

Será que o 12º andar e seus papéis têm algo a nos dizer? Acho que eles nos falam do tempo, como uma alegoria para os 12 meses de um ano, enquanto a descida pelo olhar visualmente infinito da escada em espiral, nos leva com Orfeu até a porta guardada pelos Canserberus, que decidirão quem é digno de se aproximar dos Deuses do submundo, em meio ao chamado branco para a alma de Eurídice, para tentar recuperá-la novamente, falando-nos de uma jornada tão eterna quanto impossível.

Vislumbres atualmente desconfortáveis de uma feminilidade naturalmente excitante

Por outro lado, e como um fato que me impressiona muito, contemplo, por meio de trabalhos como este, o quanto a naturalidade foi perdida no cinema, especialmente nos últimos anos, como consequência da deturpação dos termos de igualdade e respeito. Como um exemplo da censura inconcebível que agora vem de preconceitos do público em vez de filtros legais, perdemos a possibilidade de contemplar a verdadeira essência da natureza humana. Essa sedução mágica da figura feminina, que com o balanço de seus quadris é capaz de fazer com que o olhar de qualquer homem a siga, e depois se reserva o direito de escolher por meio de seu sorriso quem é digno de contemplá-la e quem não é, não foi um sinal claro de empoderamento? Em que momento começamos a nos sentir degradadas como consequência do que nos fazia sentir seguras, felizes e bonitas? Quando paramos de criar nossas próprias roupas com os tecidos que nos faziam voar com o vento, para termos de andar nuas em busca de nossa autoestima? Suspiro e penso... o quanto nos permitimos ser manipulados e quanta arte estamos perdendo por causa disso.

No entanto, a censura existia e estava tudo bem.

Ver, por exemplo, que em meio a tanta festa o mais normal e socialmente comum é que a intoxicação emocional não provenha, em si, do puro entusiasmo compartilhado pela celebração - nem mesmo do ritmo musical frenético que obriga os pés a pularem por todos os lados - e a contrastante ausência de qualquer elemento que revele a participação direta de alguma substância inibidora do autocontrole, demonstra o profundo respeito com que o filme foi desenvolvido em relação ao próprio público potencial que se pretendia atingir e o consonante cumprimento das normas legais que o levaram a abrir as portas para sua exibição em todos os cantos do planeta e a recepção de todos os aplausos que o consagraram, sem que isso representasse uma falha contextual, nem tivesse qualquer relevância para o desenvolvimento da trama, permitindo que o próprio espectador brincasse com cada cena por meio de sua própria imaginação, complementando-a com o que lhe aprouvesse de acordo com seus gostos particulares, independentemente de a embriaguez ser produto de rum, tequila ou Fernet.

Tão pitoresco que quebrou o gelo em Hollywood

Essa atenção cuidadosa aos detalhes, em que até mesmo a livre espontaneidade na participação dos animais que convivem em qualquer casa de favela, como poderiam conviver na casa de qualquer cidade do mundo, juntamente com a explosão de cores carnavalescas, a efusividade dos casais correndo, a loucura das barracas do mercado, as crianças como símbolo do futuro, a música como linguagem do amor e do espírito, o sol representando a força da paixão e da nobreza e o ciúme como sinal de pecado, tudo isso se combina para nos fazer sentir que estamos no meio de um carnaval, a loucura das barracas de feira, as crianças como símbolo do futuro, a música como linguagem do amor e do espírito, o sol representando a força da paixão e da nobreza e o ciúme como sinal do pecado nos falam com sua poesia sedutora de um Brasil ávido por ser descoberto e por mostrar ao mundo a beleza de viver alegremente acima das tristezas.

No entanto, o tempo não passa em vão e, apesar de ter ganhado a Palma de Ouro em 1959, os prêmios Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira no ano seguinte e, finalmente, a tão desejada estatueta humanoide do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, Orfeu Negro desapareceu sutilmente entre as lembranças de uma época de ouro que nos teria imbuído de um legado cultural e cinematográfico do qual se fala cada vez menos, assim como sua história que, apesar de se contar entre uma música e outra, e o esplendor dos figurinos cheios de cores e texturas entre as finas costuras que nos confrontam com a elegância que permeava o carnaval há mais de 70 anos, contra a nudez irrefreável de nossos dias, está correndo o risco de se perder na bota de joias esquecidas e filmes injustamente pouco conhecidos para sempre.

Mas não se preocupe! Você pode assistir ao filme aqui, graças à bondade do nobre YouTube.


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