Mickey 17 não é sobre o que você pensa que é 

Pelo que tudo indica, eu deveria ter ficado animada para assistir Mickey 17 — e fiquei! Não sou muito de jogar, mas me lembrou de todas as gameplays e análises de Hardspace: Shipbreaker que assisti, embora o filme aparentemente seja baseado em um livro. Como esquerdista e anticapitalista, a servidão por contrato e a versão mais sombria do capitalismo são premissas profundamente atraentes... então, alguém poderia me explicar por que fiquei decepcionada?

Pelo menos no começo sim.

É engraçado, se eu paro para pensar. Depois dos primeiros trinta minutos, estava pronta para desistir, não porque não era o que eu pensava que era, mas porque era exatamente o que eu pensava que era. Felizmente, o filme logo saiu do script — e preciso dizer: Mickey 17 não é sobre o que você pensa que é.

Se você ainda não conhece, Mickey 17 conta a história de Mickey — todas as 18 versões dele. Depois de alguns problemas financeiros envolvendo um agiota ligeiramente (ok, muito) assassino, ele decide sair do planeta o mais rápido possível em qualquer nave que encontrar. O problema é que ele não leu bem o que o emprego para o qual estava se inscrevendo envolvia, por isso ele acaba trabalhando como cobaia, sendo exposto a novos medicamentos, radiação e doenças misteriosas. Mas não se preocupe: toda vez que ele morre, ele é clonado, então não tem problema... né?

Não tem problema até que um dia o Mickey 17 se mete em uma situação complicada e é dado como morto; ao voltar à base, ele descobre que o Mickey 18 já tinha sido feito. Isso faz o Mickey 17 perceber que não é realmente ele quem está sendo clonado e que isso é super ilegal, então não importa o quão animada sua namorada esteja em ter dois dele (quem não ficaria animada em ter dois Robert Pattinsons?), pois agora eles correm o risco de serem mortos permanentemente.

Neste ponto, tudo deve fazer sentido, né? Definitivamente isso se encaixa nas discussões anticapitalistas que eu tanto amo, além de trazer algumas mensagens antidemagogas, só por precaução, graças ao comandante, um louco religioso e uma imitação assustadoramente precisa de Donald Trump interpretada por Mark Ruffalo. É mais uma das críticas de classe típicas do diretor Bong Joon Ho, e ele é aclamado por um motivo.

Mas apesar da minha apreciação pelo assunto e da reputação de Bong, me vi ficando cada vez mais entediada. Nada em Mickey 17 parecia novo — era só uma sátira dolorosamente óbvia que não pedia esforço algum do público. Era deselegante, sem inspiração, sem graça... Até que, de repente, toda a discussão sobre os direitos dos trabalhadores pareceu se perder um pouco na confusão. Tentei explicar a um amigo meu sobre o que era o filme e não consegui, porque quando as centopeias com nível de inteligência humana (e, claro, os molhos incríveis em que podiam ser transformadas) se tornaram um ponto importante, as coisas ficaram confusas demais para serem explicadas.

E sabe de uma coisa? Não poderia ter ficado melhor.

Este é o print que melhor descreve a experiência do filme. Se não entendeu, só assista.

Você vai assistir Mickey 17 esperando a mesma mensagem liberal que eu, mas o que recebe é o que pode ser descrito como o equivalente de ficção científica de Mamma Mia. Não dá para ficar assistindo várias vezes, já que o choque e a confusão são essenciais para a experiência, e tem um pouco mais de mistério do que Mamma Mia mas, no final das contas, parece tão instável quanto o musical do ABBA. Dá uma sensação única de que, na sala dos roteiristas, eles ficavam dizendo "Não seria legal se..." e adicionavam qualquer coisa mencionada ao roteiro final. Quanto mais o filme durava, mais sem sentido tudo parecia, e digo isso da melhor maneira possível.

Hoje em dia, grande parte da mídia que consumimos está tentando nos convencer de algo, entregar uma mensagem relevante sobre a sociedade e o universo... mas chega um ponto em que cada roteiro é mais ou menos o mesmo, e talvez ainda mais importante, é legal aproveitar uma viagem maluca e não ter que pensar muito às vezes. Mickey 17 pretendia ser divertido e ridículo? Talvez sim, talvez não. O humor pelo menos tem que ser intencional. Mas independente do objetivo de Bong, ele conseguiu criar um filme que realmente me surpreendeu e encantou, então não vou questionar muito seu processo criativo.

Mickey 17 está recebendo um pouco de ódio dos cinéfilos, e muito disso é crítica válida... Se você for assistir ao filme esperando que faça jus ao legado dos trabalhos mais sérios de Bong, não vá. Vá assistir pensando que é estranho e engraçado — e talvez um pouco exagerado. Pergunte a si mesmo como a vibe de Mamma Mia se traduziria em ficção científica, perceba que você não tem ideia e aproveite para descobrir a resposta pelas próximas duas horas e pouco. Eu prometo que você não vai se arrepender — porque Mickey 17 não é sobre o que você pensa que é. É sobre muito menos e, por isso, é sobre muito mais.

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