Este é o fim de uma série sobre Leonardo Favio. Aqui estão os links para o primeiro, o segundo e o terceiro textos dedicados ao compositor-cantor-ator-diretor.
por Leandro Afonso
Ley de Cine
Na primeira vez que exibi, na íntegra, um longa metragem de Leonardo Favio em sala, uma aluna me confidenciou que o filme a fez recordar muito sua mãe. A figura materna foi a primeira educadora cinematográfica, a companheira de muitas sessões, mas já não estava neste plano. Os comentários dela chegavam com lágrimas de contentamento e saudade. Ana Beatriz Vieira Rocha, autora do relato, não sabia, mas respondeu a uma pergunta que ela desconhecia. A sensibilidade trazida diante daquela obra me fez não ter mais dúvidas: dias depois, a chamei para escrever, a quatro mãos, um curta musical, que pretendia ter uma ínfima fração da beleza de Aniceto, o último longa de Leonardo Favio e que exibi em sala. O filme que fizemos na tríplice fronteira, com uma equipe quase que integralmente formada por estudantes da UNILA, veio a se chamar Ontem Lembrei de Minha Mãe.
Aniceto foi o único longa de Favio feito no século XXI, mais de 30 anos depois que ele precisou sair da Argentina. Em 6 de abril 1979, o artista aparece em uma das “listas negras de la dictadura”, que reúne 12 páginas e 285 nomes perseguidos, entre eles o músico, cantor e compositor Atahualpa Yupanqui, a cantora Mercedes Sosa, o escritor Julio Cortázar, o cineasta Fernando ‘Pino’ Solanas, a atriz Norma Aleandro e ele, Leonardo Favio, “director de teatro – director cine – actor – cantante – autor”.[1] Em 1983, retorna a democracia na Argentina, mas problemas com um fêmur quebrado impedem Favio de retornar do exílio na Colômbia, posterior a um período no México.[2] Somente dez anos mais tarde, finalmente reestabelecido na sua terra natal, ele volta a lançar um filme, ligado a um importante acontecimento extrafílmico.
Em 26 de janeiro de 1994, o cineasta enviou uma carta à Secretaria de Cultura, na qual sublinhou os problemas que via no sistema cinematográfico do país. Filmes estadunidenses tinham o privilégio de não pagar impostos para serem exibidos na Argentina, que, por outro lado, enfrentava enormes dificuldades para manter sua indústria local, apesar de uma já consolidada tradição cinematográfica reconhecida também internacionalmente. Favio destaca que o cinema nos narra, conta ao mundo quem somos, e que os países com vocação de protagonistas cuidam de forma enciumada de sua própria cinematografia. “Diante dessa situação, não basta simplesmente verbalizar um protesto justo. Devemos também agir, devemos sacrificar a ‘bajulação e a gratificação’ que enfraquecem a energia criativa e as forças morais que sustentam nosso comportamento”. Gatica, el mono (Leonardo Favio, 1993) foi escolhido pelo Instituto Nacional del Cine (INC) da Argentina para representar o país no Oscar semanas depois, mas o diretor do filme, nesse contexto, deu um passo atrás. “Recusei sistematicamente os convites que me fizeram distintos festivais (Cannes, San Sebastián, etc.) para participar com meu filme Gatica” e agora, como protesto contra esse sistema que facilita a entrada do capital dominante e dificulta a existência de uma indústria própria, “devo renunciar”. Assim ele pediu para retirar seu filme da candidatura ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Seu desejo era “golpear as portas de nossos parlamentares; elucidar a opinião pública”, em resumo, estimular atualizações na Ley de Cine.[4]
Vieram as cerimônias do Oscar, de Cannes e de San Sebastián: Gatica não foi a nenhuma delas. Em outubro daquele ano, contudo, foram aprovadas as mudanças na Ley de Cine.[5]
Ternura, espetáculo e sensorialidade: o último ciclo de filmes
O número musical de Roxanne é um dos mais conhecidos de Moulin Rouge (Baz Luhrmann, 2001). Só depois descobri, porém, que a melodia daquele tango – com parte da letra de The Police – já existia: Tanguera. Ela é uma composição do argentino Mariano Mores, está presente em O Romance de Aniceto e Francisca (Leonardo Favio, 1967) e em Gatica, el Mono (Leonardo Favio, 1993). Neste último, a música aparece em dois momentos fundamentais da história de um exímio boxeador marcado por condutas lastimáveis, por uma carapaça que quer esconder, com arrogância e crueldade, suas fragilidades como ser humano.
É natural a lembrança de Touro Indomável, mas a busca pela beleza plástica de homens por vezes odiosos, a relação entre amigos, os movimentos de câmera, o ritmo, tudo simboliza Favio. As músicas também vão por um caminho bem latino-americano. Tangos ganham a companhia de mambos e até de uma marchinha carnavalesca: o grupo Maracangalha interpreta o clássico Com pandeiro ou sem pandeiro, eu brinco.

O projeto seguinte de Favio ficou conhecido como seu eterno-metragem. O nome jocoso diz respeito não apenas ao tempo que a obra demorou para ser finalizada, mas também à duração dela. O único documentário da carreira do diretor dura mais de cinco horas e é dedicado a ninguém menos que Juan Domingo Perón: Perón, sinfonia do sentimento.
Ali se nota a devoção por uma certa imagem peronista, posteriormente deturpada e/ou reinterpretada, a favor do trabalhador e contra as oligarquias. O documentário se encaixa dentro de um certo formato clássico (com voz over, imagens de arquivo, cartelas que descrevem acontecimentos históricos, etc.) e, simultaneamente, faz um uso de imagens, sons, músicas e efeitos visuais que o tornam muito mais sensorial.

Por fim, vem Aniceto, meu Favio preferido, assim descrito pelo escritor e cineasta César González.
Tinha visto muito filme com minha mãe até os 16 anos, quando fui preso, mas minha formação sólida no cinema começou quando saí, aos 21. Aí comecei a estudar seriamente, a ver filmes. Meus favoritos de Favio são ‘El Dependiente’ e o último, ‘Aniceto’. Esse, com a rinha de galos, é uma experiencia sensorial superior: como se compõe a montagem, o som, o visual, o que faz (o bailarino) Hernán Piquín, a iluminação. Tudo é uma coisa muito bela, uma mescla de dança, cinema e periferia.[6]
Se a palavra ternura costuma ser convocada para analisar já os primeiros filmes de Favio [1965-69], e o cinema-espetáculo chama a atenção da segunda fase [1973-1976],[7] a sensorialidade se sobressai na última. A combinação do som com a imagem são mais singulares que o relato narrado. Gatica, el mono tem uma violência lírica, sublinhada pela música, pela câmera lenta, pelo tempo dedicado ao sangue, aos golpes e aos prantos, que embelezam uma dor pretensamente dignificada, um amor brutal, um ato de resistir – mesmo que essa resistência venha de alguém que, por vezes, é um grandessíssimo canalha. É em Gatica, el mono, nesse lugar onde ídolo se intersecciona com o patife, e onde o boxe encontra o balé, que Aniceto tem um inusitado ensaio, fruto da parceria de Leonardo Favio e Iván Wyszogrod, para quem os dois compartilhavam “certos códigos de ética e de romantismo”.[8] Wyszogrod é o autor da música dos três últimos filmes de Favio, que levam os nomes de três homens: Gatica, Perón e Aniceto. O derradeiro deles chegou a ser abandonado pelo diretor, que foi convencido a mudar de ideia pelo compositor, 32 anos mais jovem. Em 2012, quatro anos após lançar Aniceto, seu filme-testamento, Fuad Jorge Jury faleceu em Buenos Aires.

Favio e suas unanimidades infames
Favio, é bom destacar, esteve longe da santidade nos instantes mais privados que compartilhou. Durante as filmagens de El Jefe, exigiu que tivesse o mesmo transporte do protagonista, em um comportamento que posteriormente considerou insensato. Ele reconheceu que sempre foi muito inseguro, que se voltou à direção cinematográfica para conquistar mulheres e que, com essa escolha, seria mais fácil também omitir seus erros ortográficos, que trazia até na fala.[10] Favio afirmou que não foi leal a sua mãe,[11] de quem herdou o nome artístico, com quem aprendeu tudo que sabia com relação a atores, e a quem deveria ter dado mais espaço em sua obra.[12] Viveu no luxuoso hotel Alvear, em Buenos Aires, porque já não sabia o que fazer com tanto dinheiro como cantor: chegou a ganhar cinquenta mil dólares semanais. O sucesso cobrou também um outro preço e, na época de Fuiste mía un verano, precisou ficar seis meses preso em casa para tratamento médico.[13]
Havia algo naquela postura que contradizia o feroz crítico do capital sem limites, mas essa conduta reprovável – e, nas palavras do próprio Favio, vergonhosa – o humanizava. O sociólogo Pablo Alabarces diz não conhecer quem "tenha formulado esteticamente, com semelhante potência e ternura, um programa político tão amoroso com as classes subalternas na Argentina”, como também reconhece que o diretor não se interessava por heróis, mas sim por infames.[14] Com essa postura de ostentação, Favio assumia um lugar que dedicava a seus personagens: se tornava também um infame.
Florencia Halfon diz que a unanimidade de Favio se compara à de Jorge Luís Borges. O escritor, ideologicamente à direita, talvez o mais célebre dos antiperonistas, consegue ser lido e admirado por diferentes espectros políticos, incluindo aí os peronistas. A opinião de que algo similar acontece com Favio, capaz de ser venerado inclusive por direitistas e antiperonistas, é compartilhada, entre tantos outros, pelo escritor e cineasta César Rodríguez, entrevistado pela autora. Já a alma e a popularidade de Favio, ainda de acordo com Halfon, são comparáveis ao fogo de Che Guevara e Maradona.[15]
O que ganhamos e o que perdemos?
No documentário Maradona por Kusturica, o primeiro se pergunta sobre o potencial abreviado pelo vício da cocaína e diz: “que jogador perdemos!”. Nazareno Cruz y el Lobo é um sucesso inigualado e inigualável, venceu prêmios em Cartagena e foi indicada ao Oscar de melhor filme estrangeiro, mas a indicação – anterior aos tempos da Internet – foi sequestrada por militares e hoje se encontra no Museo Universo Favio, em Avellaneda.[16] 19 anos depois, Gatica, el mono também não pôde competir. No primeiro caso, milicos com ojeriza à própria cultura boicotaram o filme; no segundo, o diretor desdenhou da cerimônia por um efeito coletivo. Por tudo exposto nos outros textos, a segunda ação é uma consequência indireta da primeira. Nesse contexto, é plausível imaginar melancolicamente: quantos filmes maravilhosos perdemos?
Por outro lado, o copo meio cheio leva a outras questões. Quanto que atitudes como as de Favio contribuíram para o fortalecimento da indústria audiovisual, e posteriores reconhecimentos internos e externos? Quantas obras maravilhosas ganhamos graças às mudanças na Ley de Cine?
Aqui no Brasil, discutimos muito essa semana sobre qual filme deveria representar o país na pré-seleção do Oscar – O Agente Secreto é uma escolha bem justificável – e esquecemos, por vezes, de uma coletividade sem a qual não existem singularidades, de um ecossistema sem o qual as obras não se sustentam, de um esforço coletivo sem o qual não há, sequer, o próprio cinema. Assim, vale a pergunta: quais ações estamos dispostos a fazer, quais bajulações e gratificações podemos sacrificar, por um bem cinematográfico muito maior?
[1] Esses arquivos históricos foram encontrados no Edifício Cóndor, sede da Força Aérea argentina, em 2013, durante o segundo mandato de Cristina Fernández Kirchner. HALFON, Florencia. Favio vigente: un recorrido por sus pasiones. Futurock Ediciones, 2023, p. 51.
[2] Ibid., p. 58.
[3] Ibid., p. 216-217.
[4] IGNACIO, Landaburu. “El personaje Gatica, ‘el Mono’ en Leonardo Favio, la
construcción del imaginario de identidad Nacional y popular”, dez. 2020. https://perio.unlp.edu.ar/sistemas/biblioteca/files/_Landaburu_Ignacio__TIF-Landaburu.pdf
[5] ARGENTINA. Ley 24377. https://www.argentina.gob.ar/normativa/nacional/ley-24377-767.
[6] HALFON, Florencia. Favio vigente: un recorrido por sus pasiones. Futurock Ediciones, 2023, p. 121
[7] AMANCIO, Tunico. Leonardo Favio: Faces E Interfaces De Um Certo Cinema Latino. In: Significação: Revista De Cultura Audiovisual, 2008, 35 (30), p. 96.
[8] HALFON, Florencia. Favio vigente: un recorrido por sus pasiones. Futurock Ediciones, 2023, p. 110.
[9] Ibid., p. 207.
[10] Bárbaro, el hombre y la ideia, 1994 (Halfon, 2024, p. 124).
[11] SCHETTINI, Adriana. Pasen y vean. Sudamericana. 1995.
[12] Clarín, 9 jun. 2008.
[13] SCHETTINI, Adriana. Pasen y vean. Sudamericana. 1995.
[14] ALABARCES, Pablo. Anfibia. 14 set. 2022. https://www.revistaanfibia.com/leonardo-favio-el-creador-del-alma-popular/.
[15] HALFON, Florencia. Favio vigente: un recorrido por sus pasiones. Futurock Ediciones, 2023, p. 223.
[16] FIGUEROA, Jorge. “Nazareno cruz y el lobo”: el relato del lobizón y la lechiguana cumple 50 años. La Nación, 9 jun. 2025.
Para dialogar
- Museo Universo Favio – https://universofavio.mda.gob.ar/



Compartilhe sua opinião!
Seja a primeira pessoa a iniciar uma conversa.