Memórias recheadas de Hakuna Matata 

Como a maioria, se não todas, das crianças nascidas nos anos 90, assisti a “O Rei Leão” (1994), mas não foi no cinema - minha primeira vez no cinema foi só aos oito anos, e com isso nasceu uma crítica. Eu tinha uma fita VHS, daquelas que eram verdinhas e com o holograma do Mickey Feiticeiro, que garantia que era um produto original. Fiquei vidrada, também talvez como a maioria das crianças dos anos 90, por aquela dupla dinâmica sensacional, que comia vermes - viscosos, mas gostosos - e cantava mandando que não nos preocupássemos. Timão e Pumba viraram minha obsessão - ou hiperfoco, para usar o termo adequado para nós autistas.

Timão era um suricato, animal cuja existência fiquei conhecendo graças ao filme. Mandão, metido, todo cheio de si, Timão diverte por seus exageros e sua atitude enérgica.

Pumba era um javali, um primo distante do porco. Faminto, simpático e flatulento, Pumba diverte por ser simples e bondoso, parecendo ir nas águas do amigo mas na verdade tirando-o das maiores enrascadas.

Mas minhas memórias não são de “O Rei Leão” - apesar de ter ido ver a lamentável versão em live action do filme, esse sim nos cinemas, muito influenciada por minha memória afetiva. Minhas memórias são de dois especiais para VHS: “Volta ao Mundo com Timão e Pumba” e “Jantando Fora com Timão e Pumba”.

Precisei recorrer ao Internet Movie Database (IMDb), a Bíblia - ou Alcorão, ou Talmude, como você preferir - online do cinema. Lá descobri que nenhum desses especiais estreou nos Estados Unidos e eles tiveram como origem uma série para TV de episódios curtos da dupla.

Em “Volta ao Mundo com Timão e Pumba”, Timão é atingido por um raio e perde a memória. Pumba tenta fazê-lo lembrar através de seis histórias e um número musical. Em “Jantando Fora com Timão e Pumba”, continuamos com o modelo de histórias curtas interconectadas, desta vez girando em torno do mundo culinário.

Lembro-me com carinho do Tio Boris, um javali tio de Pumba e dançarino no Balé Bolshoi na Rússia, que a dupla leva, sem querer, a nocaute logo antes de uma apresentação importante. Havia também Pumba Jr, um filhote de jacaré cujo ovo choca quando Pumba está sentado nele e o pequeno réptil passa a crer que o javali é sua mãe, o suricate seu tio e que pergunta, no meio das refeições, coisas como: “Mamãe, mamãe, por que o Tio Timão não reza antes de comer?”

Do outro especial, a memória mais forte é do caracol Veloz, que começou sendo ingrediente de uma futura refeição de Timão e Pumba e acabou virando amigo, com eles ajudando o molusco a escapar da cozinha de um chef francês.

E o que dizer do clipe musical inesquecível? Era da música, hoje já um clássico, “Stand by Me” e traduzia perfeitamente a relação de amizade inusitada entre Timão e Pumba. Eles se aventuram juntos, se alimentam das mesmas larvas, são inseparáveis. Estão ao lado um do outro em todos os momentos.

Como tudo na infância, e como acontece com hiperfocos, os dois especiais foram vistos à exaustão, até eu decorar algumas falas, que eu repetia em brincadeiras com minha família, que por sua vez também virou fã de Timão e Pumba. Até hoje, quase trinta anos depois, nos lembramos de alguns detalhes destes filmetes e isso gera risadas.

Timão e Pumba, e uma pontinha de minha infância, permanecem comigo na tela do meu celular, como wallpaper. E, claro, na minha memória afetiva, onde a dupla querida de “O Rei Leão” tem lugar cativo.

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