Esse texto é a parte 2 de uma história que começou a ser contada aqui.
por Leandro Afonso*
Os comprimidos de Picasso
2001. Era apenas mais um adolescente cativado por uma grande produção hollywoodiana, que conquistava prêmios e corações mundo afora graças, também, às suas canções. Com frequência, tinha vontade de rever uma cena, por causa da música. Sabia que ela não era original, mas só anos mais tarde descobri que aquela melodia era muito mais antiga e estava presente em dois filmes – anteriores àquela obra superpremiada – fundamentais à carreira de Leonardo Favio. Naquele mesmo 2001, começava a circular, e a causar certo burburinho, uma cópia precária de Caja Negra.
“Um dia, do nada, me chegou uma carta de Favio. Dizia que tinha visto Caja Negra (2002) e que algum dia teríamos que nos juntar, mas não para falar de cinema. Dois dias mais tarde chegou outra carta, com uma caixa, que era o primeiro prêmio que ele tinha ganho com Crônica de uma criança solitária (1965) no festival de Roma, com uma lâmina de metal escrita ‘de Polín ao Soldadito’, que era o protagonista de meu filme. Não sei, é como se você fosse um pintor e recebesse uma mensagem de Picasso”.[1]
Essas palavras são de ninguém menos que Luis Ortega: diretor argentino, responsável também por filmes renomados como História de um clã (2015), O Anjo (2018) e El Jockey (2024), inserido em um contexto singular da arte latino-americana. Luis é filho da atriz Evangelina Salazar e de Palito Ortega, uma espécie de Roberto Carlos argentino: ator, mas sobretudo cantor, famoso por baladas românticas em diálogo com o rock desde os anos 1960.[2] Leonardo Favio brinca com uma certa rivalidade que existia na época ao interpretar a música “Ding Dong (las cosas de amor)” no seguinte trecho “Si ella dice mejor Favio, yo digo Palito Ortega”.[3]
A competição, vale dizer, era estimulada mais pelos selos discográficos que pelos artistas. Luis lembra que Favio convidou seu pai para atuar em O Romance de Aniceto e Francisca (1966), quando Crônica de uma criança solitária já havia conquistado o reconhecimento do universo cinematográfico, e um pouco antes de O Dependente (1969) trazer uma história mais sombria. Essa trilogia informal chegou ao fim no mesmo ano em que foi lançado Fuiste mía un verano (Eduardo Calgano, 1969), onde Favio interpreta a si mesmo e canta, entre outros sucessos, “Ding Dong (las cosas de amor)” e “Ella ya me olvidó”.
Em outras palavras, o final da década mostra um nome adorado como poucos na América Latina. Esse mesmo homem, porém, vivia em desespero. Assim Favio descreve aquele momento. “Com tudo isso, entro em um agudo estado depressivo. Um dia digo a minha mãe que vou a Tigre com (o jornalista) Jorge Montes. Mas, na verdade, vou ao apartamentinho de meu irmão, o Negrito, que estava em Mendoza, e tomo vinte toneladas de comprimidos".[4]
Do rádio para o cinema
Quando Favio recebeu a oportunidade de protagonizar uma radionovela, ele não poderia desperdiçá-la; do contrário, recordamos, só lhe restaria delinquir, porque não sabia fazer outra coisa. Não era mais uma criança solitária. As responsabilidades da vida adulta batiam à porta daquele rapaz, que nessa época chegou a ficar nove meses preso no bairro de Villa Devoto, em Buenos Aires. “Se depois eu me coloquei atrás das câmeras, foi para não me colocar atrás das grades. Então tive sorte e comecei a me apaixonar por essa profissão”.[5] Da radionovela ele foi atuar na televisão e posteriormente no cinema, onde há um divisor de águas: El Secuestrador (1958).
O diretor do filme, Leopoldo Torre Nilsson, se tornou o espectador ideal, uma espécie de pai e amigo a quem Leonardo Favio dizia querer agradar nos filmes que realizou. Já a co-protagonista, Maria Vaner, despertou o interesse do então ator, que lhe contou meias verdades com a pretensão de seduzi-la. Ele pensou que ela não o levaria a sério tanto por sua pouca educação formal (estudou apenas até o terceiro ano do ensino básico), como por sua reconhecida dificuldade de escrever – e até falar – sem erros gramaticais. Então Favio disse que sua ambição caminhava por outras vias: pretendia dirigir mais do que atuar. Pouco mais de um ano depois era lançado seu primeiro curta, no qual ele assinava a direção, o motivo musical e o conto no qual o filme se baseou.
Leonardo Favio e Maria Vaner voltaram a trabalhar juntos, se casaram e tiveram dois filhos. Pode-se dizer que a empreitada para impressionar a colega de set deu certo. O relacionamento em si, nem tanto.

A ternura e o corpo humano
Anos antes, em 16 de junho de 1955, a Plaza de Mayo, em frente à Casa Rosada, foi o alvo de um bombardeio liderado pela Marinha e pela Força Aérea da própria Argentina. 12 pessoas que estavam na sede do Poder Executivo faleceram. As outras mortes oficialmente contabilizadas estavam, todas, em um espaço civil: o atentado militar tirou a vida de 308 pessoas.
O pretexto do massacre foi uma tentativa de magnicídio de Juan Domingos Perón, que seguiu vivo. A oficialização do golpe de Estado, entretanto, não tardou: ainda em 1955, o mandatário foi destituído e uma ditadura instaurou-se na Argentina. O congresso foi fechado, a suprema corte foi deposta e quem assumiu o poder foi uma junta intitulada, irônica e tragicamente, Revolución Libertadora. Favio tinha 17 anos e dava seus primeiros passos no rádio. Três anos mais tarde, ele contraiu hepatite C. Aos 23, presenciou outro golpe de Estado na Argentina. Com 26, filmou Crônica de uma criança solitária. Aos 28, foi testemunha de mais um golpe militar. Com 30, lançou O Dependente.
Favio encerra sua trilogia inicial em um ambiente político e social conturbado. As obras realizadas nesse período – embora pareçam falar sempre de microespaços, de um conjunto muito pequeno de personagens – são também um reflexo do tempo. Elas são, simultaneamente, muito particulares (com foco nas classes populares de áreas pouco urbanizadas, distantes da rica Buenos Aires) e universais (aborda-se o amor, o desejo, o luto, a ganância, o desalento, a inocência perdida). A ternura direcionada aos personagens e suas imperfeições aparecem carregadas de melancolia. A câmera é por vezes milimetricamente fixa, em outras extremamente móvel, e se mostra interessada em captar instantes que parecem pinturas, mas que também buscam angústias reais. Afinal de contas, entre 1955 e 1987, a Argentina não consegue completar um mero quinquênio sem ser governada por um ditador. A ansiedade e a tensão são cotidianas.
Favio se interessa pela fantasia, como veremos no seu estrondoso fenômeno dos anos 1970, mas também pela realidade, e ela é dura para as personagens retratadas nas suas obras. Civis pobres e consternados têm destinos desanimadores nos filmes não por um sadismo de Favio, mas sim porque ele observa a realidade a partir dos desprivilegiados. Esse olhar para os infortúnios, sofrimentos, decepções e desgraças, contudo, é afetuoso. A palavra mais usada para definir o cinema de Favio é tão sobreutilizada quanto precisa: ternura. O cineasta quer acompanhar as dores das pessoas que foram um pouco como ele: esquecidas, desassistidas e marginalizadas, que, porém, nunca deixaram de ser gente. A paisagem que mais fascina Favio – e não diz respeito somente a essa época – é mesmo o corpo humano.
Shakira, Messi e mais um golpe
O Romance de Aniceto e Francisca é talvez o exemplo mais bem acabado dessas imagens que parecem pinturas, que combinam criatividade, rigor formal e carinho pelas pessoas. Crônica de uma criança solitária faz referências a Os Incompreendidos (François Truffaut, 1959) e a Um condenado à morte escapou (Robert Bresson, 1956), mas é também sobre a trajetória de Favio: ele convoca referências biográficas próprias e trabalha escolhas estéticas e desfechos que afastam seu filme do decalque.

Já O Dependente, o último dos três filmes, é famoso pelo plano-sequência final, mas a escolha da câmera não é puramente virtuosa: simboliza diversos sentimentos e significados (a indicação de qualquer um deles é um potencial spoiler). A colega Agustina Cabrera considera esse filme “talvez a obra mais sinistra e arrepiante de Leonardo Favio”. O ator argentino Rodrigo de la Serna, já passados mais de 30 anos do lançamento do longa, se dedica a falar justamente sobre suas impressões ao rever O Dependente e diz que “Favio é muito popular e sofisticado ao mesmo tempo”.[6]


O espanhol José Sacristán, em entrevista para Florencia Halfon, dedica especial atenção a O Dependente e a O Romance de Aniceto e Francisca, mas em 1994, quando entregou o prêmio Goya de melhor filme estrangeiro em espanhol para Favio, se resumiu a: “esse homem que vocês estão vendo é um gênio”[7]. Hugo Piombi, um dos directores da CBS na época de Favio como cantor, o classifica assim:
“Muito especial, pura paixão. Pelo cinema, pela música, pela política, sentia tudo na sua pele, isso o convertia em um personagem intenso. Eu tratei com artistas como Shakira, Chayanne, Sandro, mas Favio era distinto. E até ele se surpreendia com sua explosão musical. […] Foi tocado pela varinha de Deus. Não são muitos os que vivem uma explosão assim: Soledad, Favio, inclusive Messi. É muito difícil explicar todo esse tipo de fenômenos".[8]
Favio, no entanto, sucumbiu. Engoliu vinte toneladas de comprimidos. Foi intenso até na descrição hiperbólica de seu suicídio frustrado. Por sorte, por acaso, quem sabe até por uma força estranha que reconhecia ali uma potência que não poderia morrer, sobreviveu. Jorge Montes, o amigo com quem Leonardo disse que estaria, ligou para Laura, mãe de Favio; ambos perceberam então que algo estava errado e foram procurá-lo. Ele precisou ficar internado um tempo antes de voltar à ativa.
O principal motivo daquela desesperança era amoroso. Naquele momento, a relação de Favio com Maria Vaner tinha se deteriorado. Reapareceram fantasmas de um homem assumidamente inseguro, que fazia xixi na cama durante a adolescência, que foi expulso da Marinha por ser incapaz, que já havia sofrido com a hepatite e agora lidava com a depressão. Favio começou a fazer cinema para não voltar à cadeia, mas também disse que a escolha era uma forma de obter mais sucesso com as mulheres. Ele se apaixonou por uma, acreditou que ficaria com ela, mas isso não aconteceu. Favio conseguiu manejar as idas e vindas de sua saúde mental e voltou a se enamorar de outra pessoa, Carola, com quem permaneceu por quase 40 anos.
Durante todo esse período, o ator-cantor-compositor-diretor nunca escondeu ser um fã de Perón[9], que faleceu em 1974. Menos de dois anos depois, esse alinhamento cobrou um preço após mais um golpe militar na Argentina (para não perder as contas, lembramos que os outros mais recentes foram em 1955, 1962, 1966). Favio já havia finalizado um segundo ciclo de filmes, outra vez com três obras, que dessa vez atingiram um público ainda maior e, proporcionalmente, sem precedentes no país até hoje. Ele era, seguramente, um dos mais conhecidos e respeitados artistas latino-americanos vivos. Por mais difícil que seja imaginar, Favio se tornou maior nos anos 1970. E por mais improvável que seja vislumbrar uma atrocidade semelhante aos 308 assassinados pelos militares argentinos na Plaza de Mayo em 1955, a crueldade da ditadura que assumiu em 1976 decidiu multiplicar, e muito, as vítimas civis em mais um governo sanguinário.
Favio disse: “partí de la Argentina cuando mencionar mi nombre estaba prohibido”.[10] Florencia Halfon lembra ainda de outro estopim, quando “um grupo de soldados invadiu sua casa e apontou uma metralhadora a Nicolas, então o menor de seus filhos”[11]. Historicamente pacífico, a Favio só restava uma solução com vida: o exílio.
[Essa história, que começou aqui, continua…].
[1] HALFON, Florencia. Favio vigente: un recorrido por sus pasiones. Futurock Ediciones. 2023, p. 100.
[2] Palito Ortega também explorou outras facetas ao se tornar diretor cinematográfico e até político, mas seu maior êxito – sobretudo comercial – se deu como cantor.
[3] Outro nome que também fazia parte dessa trinca de sucesso massivo era o cantor Sandro.
[4] SCHETTINI, Adriana. Pasen y vean. Sudamericana. 1995.
[5] Clarín. 7 fev. 1988.
[6] DE LA SERNA, Rodrigo. Página 12. 13 fev. 2005. https://www.pagina12.com.ar/diario/suplementos/radar/9-2025-2005-02-13.html
[7] Halfon (2023, p. 111).
[8] Ibid. (p. 132).
[9] Perón se liga ao peronismo, ligado ao Partido Justicialista, que tem ramificações que vão da esquerda à direita. Felipe Pigna, entre tantos outros nomes, é um historiador que aborda a história do movimento. É possível cravar que o peronismo de Favio – de forma bem resumida – é pacifista, se coloca sempre contra as oligarquias e do lado dos mais desfavorecidos. Para usar as palavras do próprio autor à jornalista Adriana Schettini: "Sempre digo que o peronismo é um ato de amor, onde a solidariedade e o amor ao próximo – milite onde milite – deve ser um ato reflexo e cego".
[10] Clarín. 7 fev. 1988.
[11] Halfon (2023, p. 155).
Para dialogar
- CABRERA, Agustina. La mirada sensible e inconmensurable de Leonardo Favio. Peliplat, 14 jun. 2024. https://www.peliplat.com/pt/article/10016572/la-mirada-sensible-e-inconmensurable-de-leonardo-favio.
- GAMBIER, Marina. Luis Ortega, con fama propia. La Nación, 18 ago 2002. https://www.lanacion.com.ar/lifestyle/luis-ortega-con-fama-propia-nid221978/.
* Leandro Afonso é professor, pesquisador e realizador audiovisual. É graduado em Comunicação Social pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), mestre e doutorando em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), com período sanduíche na Universidad de Buenos Aires (UBA). Foi professor substituto da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA), onde também desempenhou a função de coordenador adjunto do Cineclube Cinelatino, no qual segue como colaborador. Atuou como palestrante dos Pontos MIS (Museu da Imagem e do Som-SP), professor do Instituto de Cinema (InC) e da Academia Internacional de Cinema (AIC), onde segue como docente de cursos online. É diretor, roteirista e produtor de, entre outros curtas, Argentina, Me Desculpe (2015), Toda Sombra Parece Viva (2019) e Ontem Lembrei de Minha Mãe (2025), no qual também foi compositor da música-tema.



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